Hora certa do desfralde

Psicóloga analisa as causas de quando o desfralde parece um processo complicado

A maternidade, assim como outros aspectos da vida, nos mostra que uma preocupação atual pode, depois de alguns anos, ser esquecida. Que bom que esquecemos as coisas que nos tiram o sono, não é mesmo?

E uma situação que faz muitos pais de bebês se angustiarem é o período de desfralde. Enquanto para alguns esse processo mostra-se tranquilo e “natural”, para outras famílias pode parecer um bicho de sete cabeças, isso se a criança apresentar muita resistência em usar o banheiro ou não conseguir “segurar” o xixi ou cocô a tempo e, dessa forma, sujar com muita frequência suas roupinhas.

O fato é que os pais precisam observar com cuidado se seus filhos estão realmente preparados para abandonar de vez as fraldas, já que essa maturidade exige um preparo tanto físico quanto psicológico. É sobre esse assunto que trata a entrevista a seguir, concedida pela psicóloga e psicanalista Clarice Wichinescki Zotti, de Curitiba (PR), ao blog Mamãe Prática.

Qual a idade certa da criança para os pais começarem o processo de desfralde?

Não há uma idade exata, mas o desfralde precisa respeitar a constituição do sistema nervoso da criança, pois neurologicamente os bebês não nascem prontos; eles continuam se desenvolvendo após o nascimento. Françoise Dolto, famosa psicanalista e pediatra francesa (1908 – 1988), coloca que, entre 18 meses e 2 anos e meio de idade, a criança já pode ter condições de sair das fraldas, desde que seu sistema nervoso e sua musculatura estejam bem constituídos e que tenham desenvolvido uma boa coordenação motora. Dolto costumava dizer que quando a criança pode subir e descer uma escada portátil sozinha, até o último degrau, agarrando-se com as mãos, nesse momento evidencia-se que seu sistema nervoso está constituído e, portanto, pode tirar a fralda se prestar atenção.

É comum os pais relatarem que seus filhos choram muito quando sentam na privada, e alguns até berram. O que fazer nestes casos? Isto é sinal de que as crianças estão com medo?

Fazer o xixi ou o cocô no momento em que o adulto o solicita é uma maneira de recompensar, um sinal de harmonia com a mãe. A recusa em se submeter aos desejos da mãe pode demonstrar uma punição, um desentendimento com a mãe. Ao conquistar o controle esfincteriano, a criança descobre o seu poder sobre seus excrementos, que ela oferece ou não à mãe, como um presente (dar o que ela pede), ou uma punição (reter as fezes, fazer xixi num lugar diferente daquele que a mãe quer, etc.). Esse jogo de passividade ou atividade, dar ou reter, faz parte da formação psíquica da criança e colabora no esboço de sua personalidade. Quanto mais tumultuado esse processo, maiores serão os problemas depois.

O ideal é rever como se está procedendo com a criança e tentar entender o seu choro. Quando a criança berra nem sempre é medo, às vezes, é raiva de se ver subjugado aos desejos da mãe, do qual ela tenta se rebelar. Quanto mais invasiva for a mãe em relação ao corpo do filho, maior a probabilidade de problemas e fixações psíquicas futuras.

“Quando a criança berra nem sempre é medo, às vezes, é raiva de se ver subjugado aos desejos da mãe, do qual ela tenta se rebelar”

Quando a criança é muito resistente a usar o banheiro, aonde pode estar a causa do problema?

Existem algumas hipóteses:

a) A criança pode ainda não ter maturação suficiente, por ser cedo demais;

b) Ela pode estar nesse jogo de forças, numa ambivalência entre amor e ódio, tentando se firmar ativamente em relação aos desejos da mãe, às vezes abusivos;

c) Ela pode ter alguma disfunção neurofisiológica, problemas nefrológicos ou outras patologias de origem orgânica. Nesse caso, o pediatra pode ajudar;

d) Ela pode estar desenvolvendo algum problema de origem psíquica. O psicólogo ou psicanalista pode avaliar isso.

O que os pais devem fazer quando há muita resistência do filho em usar o banheiro?

Se suas tentativas não estão dando certo, convém aos pais procurarem ajuda de um psicanalista ou psicólogo. Por que eles precisam ficar sofrendo e se angustiando sozinhos, quando, às vezes, uma simples conversa com um desses profissionais pode ajudá-los a identificar o que está impedindo essa evolução na criança?

É aconselhável primeiro tirar a fralda durante o dia? E, portanto, só depois de alguns meses tirar a fralda noturna?

Algumas crianças, depois que conseguem usar o banheiro ou peniquinho durante o dia, amanhecem com a fralda seca. Isso é sinal de que já conseguem controlar os esfíncteres completamente. Outras, ainda precisam de um tempo de fraldas à noite. A partir do momento em que a fralda amanhece seca, já é sinal de seu controle esfincteriano noturno.

“A partir do momento em que a fralda amanhece seca, já é sinal de seu controle esfincteriano noturno”

Gostaria de acrescentar mais alguma informação?

Gostaria de acrescentar um trecho do livro de Françoise Dolto – “As etapas decisivas da infância” – a respeito do “adestramento” esfincteriano da criança, quando esta ainda não tem condições maturacionais para isso, ou seja, condicionamento antes dos 15/18 meses: “O adestramento ao asseio das crianças é, em nossa sociedade, o maior erro que se possa cometer com a personalidade futura. Em clínica e em pedagogia, percebe-se que, quanto mais cedo uma criança ficou asseada, mais desassossegada ela cresce e mais dificuldades tem para seu desabrochar posterior.”

Mamães, confiram mais orientações da psicanalista no post “Dicas para o desfralde”.

Espero que estas orientações sejam úteis pra você e que esse assunto se torne apenas uma simples lembrança ou um problema já esquecido no futuro.

Beijos, da Mamãe Prática Mari.

3 opiniões sobre “Hora certa do desfralde”

  1. Adorei o blog, especialmente esse post. Estou passando pela fase do desfralde. A minha filha tem 2 anos e 8 meses. Durante o dia ela nao usa mais fraldas, mas a noite eu já tentei tirar (2 vezes), vazou, e como a Julia tem dificuldade para dormir resolvi esperar um pouco mais.
    De um modo geral, foi tranquilo retirar a fralda durante o dia, as vezes escapa xixi, mas acho que eh normal. No entanto, eu tenho feito o papel “mae enxaqueca” que acha que a filha tem que sentar no pinico a cada meia hora. rsrs. A ultima vez eu ameacei colocar a Julia de castigo caso ela nao fosse fazer xixi. Ela, contrariada, sentou no pinico, ficou la uns 3min., levantou, colocou a calcinha, olhou nos meus olhos e disse: “Viu, mamãe. Eu disse que nao tem xixi”.
    A difícil arte de educar! :)

    1. Oi Rose! Ficamos muito felizes em saber que você está curtindo nosso blog! Que interessante a sua experiência, é muito legal você compartilhá-la com a gente, afinal muitas mães estão passando pela mesma situação. Realmente, é a difícil arte de educar! Que a sua pequena logo consiga abandonar de vez as fraldas, mas com tranquilidade e menos estresse pra vocês. Boa sorte!! Bjs, da Mamãe Prática Mari

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