Tudo o que você precisa saber sobre hipotireoidismo na gravidez

Queridas, esse é mais um post para falar sobre hipotireoidismo na gravidez, tema que continua entre os mais acessados no blog! Isso porque as doenças da tireoide (glândula localizada na região anterior do pescoço) têm se tornado cada vez mais comuns entre as mulheres gestantes. Tanto é que muitas leitoras (e seus parceiros) nos escrevem aflitos com essa situação.

Recentemente, a endocrinologista Maria Fernanda Barca, doutora em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), membro da The Endocrine Society (EUA) e membro da European Thyroid Association, enviou pra gente informações sobre pesquisas que vêm demonstrando que a ingestão de selênio durante a gravidez e no pós-parto minimiza os sintomas do hipotireoidismo e do hipertireoidismo.

Segundo a médica, o selênio tem ação anti-inflamatória, pois contém enzimas que controlam a função imunológica, ajudam no metabolismo da tireoide e diminuem a oxidação dessas células. “Se o diagnóstico de tireoidite é feito na gestação, com anticorpos contra a tireoide positivos, o uso de selênio em cápsulas é recomendado para diminuir a agressão à tireoide, podendo evitar a evolução para uma doença permanente”, explica Maria Fernanda.

Antes de dar mais detalhes sobre as doenças, é importante a gente entender que:

  • Tireoide é uma glândula localizada na região anterior do pescoço que tem a função de produzir os hormônios T4 (tiroxina) e T3 (triiodotironina) que estimulam o metabolismo e regulam grande parte do funcionamento das células do nosso corpo.
  • Tireoidite é uma doença autoimune que tem como característica a inflamação da tireoide causada por um erro do sistema imunológico.
  • Hipotireoidismo caracteriza-se pela deficiência (baixa ou nenhuma) dos hormônios produzidos pela tireoide. A causa mais comum do hipotireoidismo é a tireoidite, principalmente a chamada Hashimoto ou crônica, que é uma doença autoimune. Outras causas do hipotireoidismo são deficiência de iodo na dieta, alterações congênitas e terapia com radiação na região do pescoço devido ao tratamento do câncer, tratamento com iodo radioativo e cirurgia.
  • Hipertireoidismo ocorre quando existe uma produção excessiva de hormônios da tireoide.

Hipotireoidismo e a gravidez
O hipotireoidismo tem se tornado cada vez mais comum na gravidez. Alguns fatores podem estar associados a isso. Primeiro, o fato de que a prevalência da doença é cada vez maior na população, principalmente entre as mulheres em idade fértil. Além disso, a imunidade diminui durante a gravidez (para não haver rejeição ao feto) e essa diminuição de anticorpos deixa a gestante mais propensa a doenças virais e bacterianas. “As viroses de orofaringe, das vias aéreas, com os vírus Coxsackie e Influenza, confundem o organismo, pois sua cápsula é muito semelhante à da tireoide, o que faz o organismo atacar essa glândula por engano para se defender do vírus”, explica a médica.

Também é importante saber que a gravidez, mesmo em mulheres que não apresentam doença tireoidiana, causa grandes mudanças nos níveis hormonais pelas complexas alterações sofridas pela glândula da tireoide.

O tratamento do hipotireoidismo é feito com a suplementação de hormônio (Levotiroxina sódica), sendo extremamente importante para evitar problemas como retardo de Q.I. (quociente de inteligência) do bebê, abortamentos, parto prematuro, além de evitar e minimizar casos de depressão materna.

A doença somente é reversível quando a gestante não apresenta anticorpos contra a tireoide (como é o caso da tireoidite de Hashimoto), mesmo assim, é importante fazer o acompanhamento para o resto da vida. “Muitas vezes, a paciente fica sem tratar e, anos depois, o que causou o hipotireoidismo na gestação se manifesta e leva ao hipotireoidismo permanente”, destaca Maria Fernanda.

Sobre a falta de iodo
A principal causa de hipotireoidismo no mundo é a deficiência de iodo e as necessidades deste aumentam ainda mais durante a gravidez e amamentação. Por isso, é importante a alimentação adequada durante a gestação, além da suplementação de vitaminas. A falta de iodo provoca hipotireoidismo por falta de matéria-prima para a formação dos hormônios da tireoide, o que é exacerbado na gestação. Segundo a especialista, a deficiência de iodo deve ser avaliada, principalmente em gestantes provenientes de áreas pobre em iodo, como nas regiões Centro-Oeste e Norte, além de respectivas fronteiras com a região Nordeste, Maranhão, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul (uma parte), Rondônia, Pará e Piauí. Neste caso o iodo deve ser suplementado.

Níveis hormonais
Muitas leitoras nos escrevem com dúvidas sobre os exames que medem os níveis de TSH e T4. Segundo a Associação Americana da Tiroide, durante a gestação os valores de referência de TSH (Hormônio Tiroestimulante) recomendados são 0,1-2,5 mUI/L no 1º trimestre da gravidez; 0,2-3,0 mUI/L no 2º trimestre; e 0,3-3,0 mUI/L no terceiro trimestre. Dessa forma, quando os resultamos dos exames estão acima dos valores recomendados, existe a indicação para o tratamento da doença. Vale dizer que no caso das mulheres acima de 20 anos que não são gestantes, o TSH recomendado é de 0,45 a 4,5 mUI/L.

Já no caso do T4L (Tiroxina T4 Livre), os valores de referência podem variar de acordo com o laboratório de análises clínicas, pois são usados métodos diferentes. “O Fleury, por exemplo, considera como valor recomendado 0,6 a 1,3 ng/dl. É importante saber que a gestante pode apresentar T4L normal, mas TSH alterado, o que caracteriza hipotireoidismo”, explica a endocrinologista.

Outros exames que podem auxiliar o médico no diagnóstico do hipotireoidismo são a presença de anticorpos (anti-TPO ou anti-TG) e a ultrassonografia da tireoide. “Na dúvida do hipotireoidismo, os anticorpos ajudam a fazer o diagnóstico da tireoidite de Hashimoto e, se o ultrassom estiver escuro, pode mostrar uma tireoide reduzida ou com nódulo”, diz.

Acompanhamento com especialista
Geralmente os obstetras solicitam apenas exames para avaliar o TSH e o T4. A médica ressalta que também é importante fazer o exame do T4L, ou T4 livre (que é a fração), pois as proteínas que ligam os hormônios da tireoide aumentam na gestação e podem confundir os resultados. “Com a T4 livre isto não ocorre e podemos avaliar que o grau de hipotireoidismo da gestante”, diz Maria Fernanda.

Dicas da especialista para as gestantes (e tentantes!)

  • Procure um endocrinologista especializado em tireoide (mesmo se você não tiver histórico de doenças tireoidianas) para checar e fazer o controle dos níveis de TSH, T4L e anticorpos contra a tireoide. Além dos exames de sangue, a ultrassonografia é importante para ajudar no diagnóstico e descartar a presença de nódulos benignos ou carcinomas.
  • Inicie o acompanhamento com o endocrinologista antes de engravidar e mantenha durante toda a gestação, mês a mês, pois a necessidade do hormônio da tireoide aumenta ao longo da gravidez.
  • Exija que seu obstetra solicite exames de tireoide mesmo antes da gestação.
  • No caso das gestantes com diagnóstico de hipotireoidismo ou hipertireoidismo, após tomar o medicamento (Levotiroxina), espere 30 minutos para fazer o desjejum. Isso é importante para garantir a absorção do medicamento no organismo.
  • No café-da-manhã não tome café expresso, ferro, cálcio, vitaminas e cereais porque essas substâncias diminuem a absorção da Levotiroxina.
  • No caso da presença de anticorpos positivos (anti-TPO e anti-Tg), recomenda-se a suplementação com selênio (em cápsulas) para evitar maior agressão à tireoide, assim como a evolução para doença permanente no pós-parto, aumentando as chances de regressão. Converse com seu médico.
  • Mulheres com hipotireoidismo e hipertireoidismo podem ter dificuldade de engravidar e maior risco de abortamento, por isso é importante consultar um endocrinologista antes de engravidar.

Pós-parto
No pós-parto também pode ocorrer um efeito rebote da imunidade, principalmente nos primeiros seis meses e até um ano, o que pode agredir a glândula e causar as doenças da tireoide (reversíveis em 60% dos casos com o uso do selênio). Os principais sintomas da tireoidite pós-parto são variações de humor e depressão, o que pode levar, comumente, a problemas familiares. Essa situação pode ser minimizada quando é feito o acompanhamento na gestação. “Os fatores de risco que precisam ser observados são mulheres com hipotireoidismo, com doenças autoimunes na família, portadoras de diabetes tipo 1, vitiligo, artrite reumatoide, entre outras, assim como mulheres que tiveram abortos de repetição, histórico de parto prematuro e história prévia de tireoidite”, explica Maria Fernanda.

Queridas leitoras, sabemos que esse tema é bastante delicado e específico. Diante de tantas leitoras que nos procuram pedindo ajuda, senti a necessidade de aprofundar mais o tema (espero ter ajudado!). E se você quiser entender mais sobre as doenças da tireoide na gestação, recomendo ler esses outros posts que já fiz sobre o tema: Hipotireoidismo na gravidez: e agora? e Hipotireoidismo: cuidados na gestação.

Agradeço muito à Dra. Maria Fernanda Barca que compartilhou com a gente seus conhecimentos e orientação sobre o tema!

Beijos, da Mamãe Prática Fabi

Fontes: Dra. Maria Fernanda Barca, sites SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e SBEM-RJ.

Foto: freeimages/ Merlijn Enserink

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4 ideias sobre “Tudo o que você precisa saber sobre hipotireoidismo na gravidez”

  1. Oi o obstetra não aumentou o remédio quando estava com 7 semanas TSH 2,41 T4 0,81 .Hoje estou com 18 semanas e não fiz mais exames .Quando deve ser feito os exames?Estou usando levoid de 100.Também estou usando progesterona.O progesterona ajuda a tireóide funcionar melhor?

    1. Oi Cristiane, geralmente os exames solicitados pelo endocrinologista são mensais. Segundo a médica que consultamos, quando a paciente usa progesterona, pode haver um aumento da necessidade de hormônio da tireoide, por isso, a dose de levotiroxina costuma ser maior. O ideal é realmente avaliar seu caso com um médico endocrinologista. Boa sorte querida! Beijos, Mamãe Prática Fabi

  2. Oi obstetra eu estou com 12 semanas de gestação e hj levei um um susto minha tireóide hipotireoidismo está tsh 4,40 estou muito preocupada pois já engordei muito e estou um pouco inchada , quero saber se esse niver de tireóide pode prejudicar meu bebé .
    A eu vou ter retorno com endocrinologia só daqui alguns dias obg , adorei o blog

    1. oi Adriana, primeiramente parabéns pela gravidez! O ideal é que você possa consultar seu endocrinologista o quanto antes para já ajustar o tratamento do hipotiroidismo e, com isso, minimizar qualquer risco para a gravidez e o bebê. Beijos, da Mamãe Prática Fabi

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