Despertar para a leitura

Recentemente divulgamos aqui no blog as dicas da educadora infantil Lô Carvalho sobre como apresentar a leitura ao bebê para que a criança, desde pequeninha, tenha contato e goste dos livros.

Na ocasião, enviei algumas perguntas para a Lô sobre o tema e ela nos respondeu  compartilhando mais dicas e reflexões a partir da sua prática profissional e experiência com seus filhos, a Bibi e o Fê que hoje estão com 14 e 10 anos. Veja que bacana para se inspirar:

Despertar para a leitura
Por Lô Carvalho
Professora, autora, editora e, é claro, mãe!

Vou te contar, meus filhos leem muito…

A Bibi e o Fê sempre leram muito. Desde pequenos. Uma das minhas recordações mais antigas como mãe é com a Bibi segurando nas mãos um livro que trazia em uma página o som dos bichinhos e na outra a figura do bichinho escondida por trás de um pedaço de papel recortado. Ela devia ter uns seis meses. Sempre que eu lia o livrinho em voz alta, ela fazia cara de surpresa ao descobrir o bichinho escondido. A leitura desse livro prosseguiu com encantamento até a idade de 24 meses (e eu guardo ele até hoje, um dia será dela). Outra lembrança, uma das minhas mais queridas, é do Alberto (o pai) na nossa cama com as crianças, um pouco antes da hora de dormir. Da sala eu ouvia as gargalhadas deles. A leitura do Alberto sempre foi espontânea e divertida. E ele sempre gostou de ler de tudo para as crianças, como poesia, conto, história em quadrinhos, piada, adivinha. Não importava qual tipo de texto era, quando ele lia, as crianças amavam.

Adoro entrar no quarto da Bibi e ver a sua coleção de livros do Harry Potter. Ela demorou uns dois anos para começar a ler a coleção, o que me deixou bastante frustrada. Ela via os filmes, mas não queria saber dos livros. Um belo dia, ela simplesmente começou a devorar o primeiro livro da série e não largou mais a coleção. Leu e releu três vezes todos os livros e mais os livros complementares, as revistas e os blogs sobre a série. Ganhou de natal uma linda edição em inglês, com capa dura. Em uma viagem à Argentina, fez questão de comprar uma edição em espanhol. É uma colecionadora de livros!

A história que eu mais gosto de contar do Fê é a sua relação com os gibis. Sim, ele é um aficionado pela Turma da Mônica. É capaz de ficar horas lendo as suas revistinhas, morrendo de rir. Mesmo as mais antigas, já sem capa, ele relê. Aliás, ele é fã das piadas. Quando assinamos uma revista infantil para ele, além dos brinquedinhos, ele só se interessava pelas piadas.  Eu diria que ele é um leitor que gosta de terminar a leitura tendo algo para contar para os outros. Isso deixa ele muito satisfeito.

Hoje as crianças estão bem crescidas. A Bibi está com 14 anos e o Fê com 10. Noto que eles passam mais tempo com os aparelhos eletrônicos nas mãos do que com os livros. Mas o interessante é que mesmo assim eles passam muito tempo lendo. Leem blogs, tutoriais, posts, mensagens nas redes sociais. Leem em português e em inglês, mesmo ainda não dominando plenamente o idioma. Leem sobre os livros que adoram, sabem tudo sobre os artistas que curtem. Dessas leituras virtuais nascem desejos de ler livros e revistas. É uma leitura mais informativa do que contemplativa, bem afinada ao desejo dos jovens de saber tudo.

Sobre o despertar para a leitura…

As experiências com meus filhos me fizeram repensar muita coisa como educadora. Hoje compreendo a leitura que acontece em casa e a leitura que acontece na escola como coisas distintas, que podem ou não convergir para um mesmo ponto: a maior capacidade de ler da criança. Hoje acredito que a leitura que acontece em casa, junto à família, é um ato de liberdade no qual a criança pode exercer livremente a sua vontade sobre o que, quando e como ler – inclusive de não ler. A compreensão da leitura como um ato de liberdade é, em minha opinião, a principal dificuldade dos pais para traçar o projeto de leitura da sua família -pois se trata de um projeto!

Explico: Vamos traçar um paralelo com a comida. A comida é um projeto familiar. Quando o bebê nasce, os pais imediatamente começam a deliberar sobre o que, como e quando seus filhos vão comer. Às vezes é um projeto mais consciente; às vezes menos consciente. Mas é um projeto que determina tudo: os alimentos que entram em casa, o local e o horário onde as refeições ocorrem e até os restaurantes que a família começa ou deixa de frequentar. Com a leitura acontece algo semelhante. Só que comida a criança não pode comer o que quer a hora que quer; mas com a leitura sim: as crianças podem e devem ler à vontade aquilo que mais gostam.

Assim, o meu convite é para que até mesmo os pais que não têm o hábito da leitura por lazer – mas que tenho certeza de que leem muito, pois todos nós lemos muito – definam o projeto de leitura da sua família. Tenho algumas dicas práticas:

  • É preciso ter o que ler. Não muita coisa, mas é bom ter revista, jornal, gibi, livro infantil, livro de adulto… É importante que os pais gostem do seu material de leitura e permitam que as crianças tenham acesso a ele. Também é importante que a criança tenha o seu material de leitura, com os livros e as revistas que ela mais gosta.
  • Transformar a família em uma comunidade leitora. Alguns lerão mais; outros menos. Mas todos podem e devem comentar sobre o que estão lendo ou leram na escola, no trabalho etc. Essa conversa é fundamental. É ela que confere sentido para as leituras que a criança realiza. Rir da piada, admirar o personagem, curtir a ilustração. Tudo isso é muito importante.
  • E quais são as revistas e os livros preferidos da sua comunidade de leitores? Há um autor mais querido? Há uma história mais admirada? Você está curtindo o que os seus filhos estão lendo? Essas são perguntas que não podemos nos esquecer nunca.
  • Criar na rotina um momento de ler simplesmente por que é gostoso ler. Quando começar? Se ainda bebê, melhor. Cada família descobrirá o seu melhor momento. Eu gosto muito da leitura que acontece antes do sono da noite.
  • Para que o seu bebê seja um “bebê leitor” (desde que nasce e a partir da idade que fizer sentido para a família), reserve livros e revistas para ele manusear livremente. Ele colocará na boca, rasgará as páginas, jogará os livros no chão… mas aprenderá como cuidar deles e a amá-los!
  • Nada de associar a leitura com castigo ou com coisa só da escola. O momento da leitura tem que ser como aquela partida de futebol: um momento único no qual todos se reúnem para curtir algo juntos.
  • Frequentar bibliotecas ou livrarias é uma excelente oportunidade para conhecer livros e revistas novos. Sempre que possível, deixe a criança escolher o que quer ler. Separe os seus títulos preferidos e apresente depois, em casa. Mas permita que ela transite entre um livro e outro. Faça combinados, para que ela não tenha uma crise de ansiedade e queira todos de uma vez.

 O encontro do leitor com o livro…

Algumas crianças e até mesmo alguns adultos não têm paciência para ler. Pode até ser verdade, mas eu acho que o problema não está no leitor mas sim no texto. Às vezes a gente demora toda uma vida para descobrir um livro e amá-lo. Ou um estilo, um autor… A leitura é uma construção individual que pode levar mais ou menos tempo. O que eu diria para uma criança que resiste à leitura? Ora, que ela ainda vai encontrar algo para ler que vai gostar muito. E o que eu faria? Daria de tudo para ela ler, uma hora ela descobre.

 Ler é formidável!

A satisfação de ler e gostar do texto é extraordinária. Ela traz realização, completude. Como eu disse anteriormente, nem sempre a relação entre a leitura pessoal e a leitura da escola é um caminho de duas vias. Mas é fato que a criança aprende muitas coisas importantes quando estimulada a conviver com os livros e a “ler” desde bebê. Ela aprende a manusear os livros e a cuidar deles, por exemplo. Ela começa a desenvolver importantes estratégias de leitura, como a antecipação (ela já sabe antes o que encontrará no texto).

Algumas crianças até começam a refletir sobre a escrita, iniciando o seu processo de alfabetização. Outras começam a relacionar texto e imagem, apropriando-se de dois códigos diferentes. Elas aprendem que é gostoso ler e que em alguns casos a gente aprende quando lê (ou dá risada, sente medo, chora…). Quando a leitura é baseada nos gostos e nas preferências das crianças, elas aprendem a selecionar estilos e a exercer essa liberdade. Tudo isso tem muito valor e não para na infância, prossegue com o leitor para o resto da vida. Mas cabe a escola saber o que fazer com isso e dar continuidade. Tem escola que faz muito bem; outras parecem estragar tudo.

Sobre a tecnologia

Existem dezenas de correntes pedagógicas e cada uma delas vai dizer uma coisa diferente da outra. O fato é que não há comprovação cientifica de que o contato com a tecnologia traga algum prejuízo cognitivo ou emocional. Se para uma família faz sentido usar a tecnologia no seu dia a dia, não tem problema algum apresentar o bebê aos tablets e aos computadores. Mas claro, tudo tem limite. Não vale deixar o bebê (a criança ou o jovem) horas a fio na frente da televisão ou do computador. Isso não faz bem para a saúde.

Filho precisa de movimento, expressão, ar livre, cambalhota. Também não vale usar os recursos tecnológicos como babá. Filho precisa de gente adulta e da interação com as pessoas. Pode tablete na mesa do jantar? Claro que não! Pode no restaurante? Por que se estamos em família?! Vamos lembrar que o livro, embora mais antiguinho, também é uma tecnologia. O que é fundamental é estar junto, ler (assistir ou jogar) junto, curtir junto.

Foto: divulgação

Lô Carvalho é mãe, professora, escritora e, como ela mesma gosta de destacar, uma leitora. O desenvolvimento do vocabulário do bebê sempre foi uma preocupação nos seus trabalhos que também têm como objetivo contextualizar os temas de acordo com o universo das crianças asileiras. Site: Meu Bebê Leitor

 

 

Queridos leitores, espero que essas dicas e reflexões te ajudem a introduzir e estimular a leitura nos seus filhos, desde bebês. E como é na sua casa? Os livros fazem parte da rotina da família? Contem pra gente.

Beijos,  da Mamãe Prática Fabi

2 comentários em “Despertar para a leitura”

  1. Adorei o post! É isso mesmo, quanto mais estímulos à leitura e quanto mais cedo se iniciarem, mais interessados eles se tornarão. Eu também introduzi o livro à rotina da minha pequena desde que ela tinha menos de um mês. Eu tenho um vídeo dela começando a estender a mãozinha para tocar no desenho do livro (numa fase em que levar a mão a tocar objetos era uma nova conquista).
    Hoje, já com um ano, ela folheia, “lê” em voz alta, surpreende-se com figuras e letras nos livros e revistas que temos em casa.

    1. Oi Opi, que bom que você gostou do post, ficamos felizes! E legal saber que você já coloca em prática esses estímulos para leitura com a sua filhota ainda tão pequenina, parabéns! bjs Fabi

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