Mães criam campanha sobre rótulo dos alimentos

Há poucos dias divulgamos aqui no blog uma entrevista que fizemos com a Dra. Ana Paula Moschione Castro, que é especialista em Alergia e Imunologia pela Associação Médica Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), sobre alergia alimentar em crianças.

Para dar continuidade ao tema e ajudar os papais e as mamães com filhos alérgicos, decidimos divulgar algumas informações que recebemos da campanha #poenorotulo sobre o tema.

A campanha  #poenorotulo foi criada na internet por um grupo de mães de crianças alérgicas e tem como objetivo alertar para a necessidade da rotulagem correta em prol da segurança daqueles que precisam de informações claras sobre a presença de alergênicos nos alimentos. Parabéns à essas mamães pela iniciativa!!!

Foto: divulgação
Algumas das mamães fundadoras da campanha #poenorotulo: Karina Campo, Mariana Claudino, Cecilia Cury e Priscilla Tavares

O folder da campanha
Foto: divulgação
Veja também o texto divulgado pela campanha, bastante completo e esclarecedor:

Famílias de crianças com alergia alimentar criam campanha na internet para tornar obrigatória e mais clara a rotulagem

A campanha #poenorotulo foi criada em fevereiro deste ano, na internet, por um grupo de famílias de alérgicos. Espalhadas geograficamente, mas bem unidas em um único objetivo: abrir os olhos da população não-alérgica para a necessidade da rotulagem correta de alimentos alérgenos, como leite, soja, ovo, peixe, crustáceos, amendoim, oleaginosas e glúten. Querem comer com segurança, independentemente de que forma isso aconteça: projeto de lei, resolução da Anvisa ou iniciativa das indústrias. O problema é que, nos rótulos, há falta de clareza em relação à presença dos principais alérgenos alimentares. E, no Brasil, são 5 milhões de crianças com alergia alimentar.

O sucesso foi imediato: a fanpage da campanha no facebook (www.fb.com/poenorotulo), com três meses de existência, já tem mais de 66 mil curtidas e ganhou o apoio de famosos como Reynaldo Gianecchini, Marcos Palmeira, Zico, Paula Toller, Ziraldo, Mateus Solano e o cantor Daniel, entre outros.

A campanha está dando certo: no dia 21 de maio, Anvisa divulgou uma nota em seu site dizendo que sua Diretoria Colegiada “decidiu discutir a regulamentação da obrigatoriedade de alimentos alergênicos na rotulagem dos produtos. A iniciativa atende demandas da sociedade recebidas pela Agência”. Veja nota na íntegra aqui.

Atualização:  Desde o dia 16 de junho – e até 18 de agosto, no site da agência, está aberta uma consulta pública sobre a proposta de regulamentação da rotulagem de alergênicos em alimentos. A consulta pública é uma forma de a Anvisa disponibilizar uma proposta de regulamentação em seu site para que qualquer pessoa da sociedade (física ou jurídica) se manifeste, dando sua opinião sobre o texto disponibilizado.

A insistência na importância da rotulagem existe porque, nas indústrias, há uma prática comum de compartilhamento de maquinário para produção de vários produtos e alimentos – com informações incompletas nos rótulos. E o alérgico alimentar corre risco de morte dependendo do seu grau de sensibilidade, com risco de choque anafilático e fechamento de glote, entre outras reações graves. No Brasil, cerca de 8% das crianças e 3% dos adultos possuem alergia alimentar e vivem reféns de rótulos com pouca ou nenhuma informação.

Além dos alérgicos mais severos citados acima, os mediados, existe um tipo de reação alérgica chamada de IgE não mediado, que manifesta reações tardias, podendo chegar a dias depois da ingestão do alimento. Apesar de não ser fatal, como no caso dos mediados, é igualmente preocupante, porque não é possível o diagnóstico através de exames de sangue. Os sintomas vão de vômitos tardios, sangue nas fezes, cólicas, intestino preso, baixo ganho de peso, entre muitos outros.

A advogada e doutora em Direito Constitucional pela PUC/SP, Maria Cecilia Cury Chaddad – mãe de uma criança com sensibilidade para alguns alimentos – defendeu sua tese de doutorado em Direito tratando da presença de alérgenos em alimentos como forma de garantir, à população alérgica, saúde e alimentação adequada. “Há alimentos que podem ser veneno para algumas pessoas. Precisamos não apenas aprender a ler rótulos, mas buscar mais informações junto aos serviços de atendimento ao consumidor, tendo em vista a ausência da prática de rotulagem de alérgenos. Só assim poderemos garantir mais qualidade de vida para eles”, diz ela.

MAIS SOBRE O ASSUNTO

Quais são os reais problemas destas famílias hoje?
Pela ausência de regras em relação à rotulagem de alérgenos, os consumidores enfrentam três dificuldades: 1) decifrar os ingredientes no meio das letras minúsculas para buscar identificar se há algum alérgeno; 2) conhecer as diversas nomenclaturas possíveis (caseina/caseinato = leite, por exemplo) 3) não ter informações sobre risco de traços de alérgenos 4) Resumindo… comer! E não estamos citando restaurantes, não. Há uma marca de arroz, por exemplo, que contém ovo. Como ficam os alérgicos a ovo? Muitos nem sabem disso e acham que estão “seguros” por comer em casa….

Sopa de letrinhas complicada
Além das letras pequenas, o consumidor precisa ler cada um dos ingredientes para ter certeza de que não há, ali no meio, algum ingrediente que cause alergia. Um consumidor menos informado ou mais desatento pode deixar passar ingredientes que representam risco à sua dieta – o que não ocorreria se houvesse um destaque em negrito ou em lista apartada dos alérgenos presentes, tal como já ocorre em outros países (no Brasil, isso só ocorre com o glúten). Estudos da Unidade de Alergia e Imunologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) mostraram que 39,5% reações alérgicas foram relacionadas a erros na leitura de rótulos dos produtos.

Há produtos com rotulagem correta e clara e com informações de traços de alérgenos. São exceções, mas bem unidas no objetivo de tornar realidade a rotulagem de alérgenos em produtos disponibilizados ao consumo.

E o que seriam os traços?
Existe, nas indústrias, o compartilhamento de maquinário para produção de vários produtos. Com esta prática, resquícios de proteínas acabam ficando nas máquinas, mesmo após a higienização das mesmas. Esses resquícios, por menores que sejam, podem fazer mal a alguém que apresente sensibilidade a ela.

Sem a identificação deste risco nos rótulos, o consumidor passa a ser obrigado a entrar em contato com os SACs (Serviço de Atendimento ao Consumidor), que, muitas vezes, não têm treinamento, preparo e/ou informação suficientemente segura para sanar a dúvida do consumidor. A orientação dada por este serviço é para ligar para eles sempre antes de comprar qualquer produto, pois pode haver mudanças no processo produtivo – e um produto que não tinha o alérgeno pode passar a ter. Não é mais fácil um rótulo claro? Muitas vezes, os SACs confundem, por exemplo, lactose (açúcar do leite) com proteína do leite. Tão grave quanto, há SACs que direcionam o consumidor a procurarem seus próprios médicos para questionar a segurança do produto, como se os médicos tivessem acesso diferenciado a tais informações.

O dia-a-dia
A alergia não é bem entendida e aceita por muitos, que acham que: “isso é frescura”; “é exagero”; “um pouquinho só, ou só um dia, não fará mal”. Mas, para um alérgico, não importa se é uma migalha ou uma porção, o resultado pode ser catastrófico, levando inclusive, em vários casos, a morte, em decorrência de choque anafilático. Apesar da gravidade, diferentemente do que tem sido veiculado, não há a necessidade de que a pessoa com alergia seja alimentar ou outro tipo, fique reclusa e não conviva em sociedade.

Pelo mundo
Às vésperas de receber dois eventos mundiais grandiosos (Copa do Mundo e Olimpíadas), o Brasil deixa a desejar em relação aos países europeus e aos Estados Unidos. Na terra do Tio Sam, por exemplo, existem os restaurantes Allergy Friendly, nos quais é possível encontrar alimentos apropriados para quem possua alergia alimentar. As empresas, por sua vez, apresentam em seus rótulos claramente se o produto é livre de alérgenos ou possui traços.
Lactose x proteína do leite Estamos em plena moda de dietas sem glúten e sem lactose. Com isso, o termo “lactose” acabou banalizado e muitas pessoas usam, erradamente, a expressão “alergia a lactose”. Mas isso não existe. Lactose é o açúcar do leite e não causa alergia, e sim intolerância. As proteínas do leite, como a caseína, entre outras, são as causadoras da alergia alimentar.

Queridos leitores, vocês estão vivendo esse problema na sua casa? Como lidam com isso? Espero que essas informações possam ajudar sua família a entender melhor a alergia alimentar nas crianças.

Beijos, da Mamãe Prática Fabi

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